Ao
ler o texto de Kierkegaard acima citado, espantei-me em ver a grande
percepção do filósofo dinamarquês diante de um fato aparentemente
simples: "olhar-se no espelho". Talvez seja o mais "corriqueiro"
dos atos humanos que é realizado no cotidiano de cada pessoa, inserindo
contudo
Uma perspectiva toda especial no que diz respeito à existência individual.
Uma perspectiva toda especial no que diz respeito à existência individual.
Segundo
Kierkegaard, para que o indivíduo se veja no espelho, torna-se uma
condição importante que ele tenha um "conhecimento" prévio
de si, ou seja, que o ser humano veja, sinta e perceba quem ele
está sendo naquele instante, que ele tenha consciência-de-si.
Quando
negamos a nós mesmos a possibilidade de obter essa consciência-de-si,
não nos dando conta do que sentimos, pensamos, percebemos e agimos,
ampliamos de tal forma essa desconexão individual, que simplesmente
usamos o "piloto automático" interno diariamente, que
nos leva a um distanciamento cada vez mais profundo de uma vida
saudavelmente integrada, visto que nos encontramos longe de nós
mesmos.
Um
sábio oriental um dia falou: "Um homem no campo de batalha
conquista um exército de mil homens. Um outro conquista a si mesmo
- e este é maior" (LAL, P. - The Dhammapada, 1967). Por incrível
que possa parecer, a idéia quantitativa de sucesso na vida ("conquistar
um exército") tem sido a mais promovida no mundo ocidental,
em detrimento do cultivo de uma idéia mais qualitativa de sucesso,
cuja promoção busca a excelência da saúde individual (conquistar
a si mesmo). Sem a devida reflexão do quanto a pessoa se violenta
para simplesmente "possuir coisas", o ser humano segue
abrindo mão de "ter" a si mesmo, ou seja, de "ser
a sua grande conquista". É esse paradoxo da existência que
leva o indivíduo a se perguntar: quem é essa pessoa que eu vejo
no espelho? Esse sou eu? Eu não acredito no que estou vendo!
Erving
e Miriam Polster falam que "as pessoas são notoriamente nebulosas,
até mesmo distorcem a percepção que têm de si mesmas. Elas escutam
gravações de suas vozes ou se vêem em filmes, e ficam incrédulas"
(Polster, Erving & Polster, Miriam. "Gestalt Terapia Integrada",
1979). Esta postura incrédula diante da percepção-de-si, é muito
bem ilustrada através do filme de Bruce Joel Rubin, "My Life"(Minha
Vida), protagonizado por Michael Keaton e Nicole Kidman.
Na
história, Keaton representa um "bem-sucedido" relações
públicas de uma empresa, que se vê surpreendido pela vida repentinamente,
quando se acha acometido de um câncer terminal. Vendo-se nos momentos
finais de sua vida e, percebendo o pouco tempo de que dispunha para
receber o filho que brevemente nasceria, começa a fazer uma fita
de vídeo, que para ele seria uma espécie de lembrança de si para
o seu filho, a fim de que este mais tarde o "conhecesse".
Dando continuidade a este seu empreendimento, o protagonista fica
perplexo com a opinião que alguns de seus colegas dão sobre sua
pessoa. Perplexo diz: "o que é isso? Será que eu sou assim?".
No
decorrer da trama ele busca, com a ajuda de sua esposa (Nicole Kidman),
um tratamento alternativo para a sua "doença", que começa
a clarificar o afastamento de si no qual ele vivia, cujas conseqüências
agora ele estava sentindo, ou seja: a doença, os conflitos internos
e as dificuldades de relacionamentos.
Para
poder lidar com estas questões, ele começa a aprender que a grande
viagem para realizar grandes coisas na vida não é para fora, mas
para o interior de si mesmo, objetivando-se enquanto pessoa.
A
objetividade de si "consiste pois em um processo de exploração
de si, a procura do eu autêntico para além da imagem de si que o
indivíduo quer projetar e aquela que de fato apresenta aos outros"
(Mailhiot, Gérard Bernard. "Dinâmica e Gênese dos Grupos",
1991). Penso que seja esta exploração de si mesmo, o conhecer-se
previamente ao qual Kierkegaard se referia, que dará ao indivíduo
uma percepção clara de quem está do outro lado do espelho.
Essa
busca de si pode apaziguar temores mil que se fundamentam nas fantasias
e fantasmas por nós criados ao longo da vida, pode integrar as partes
distanciadas do nosso ser, permitindo-nos ter um bom contato com
a nossa própria pessoa e com o viver do outro. Isto é ilustrado
por E. E. Cummings no seu poema, a saber:
"Um
total estranho, num dia negro
Bateu, tirando de dentro de mim o inferno
E ele achou difícil o perdão porque
(assim se revelou) ele era eu mesmo -
Mas agora aquele demônio e eu
Somos amigos imortais".
Bateu, tirando de dentro de mim o inferno
E ele achou difícil o perdão porque
(assim se revelou) ele era eu mesmo -
Mas agora aquele demônio e eu
Somos amigos imortais".
Fica
então a pergunta: "Quem é a pessoa que você vê ao olhar-se
no espelho?".
